De
Lusitânia Lopes da
Fonseca
(Background sound)

A PEDRA
Quero cantar-te ó Pedra
Ó grande amiga
Querida irmã mais velha
Minha e de toda a gente
Ó tu, força imponente
Que desde sempre foste
Quando o que agora existe
Ainda não era.
Tu deste nome à mais remota idade
Que foi dado viver à Humanidade.
Lá bem para trás
Dessa noite dos tempos
Da qual tão pouco ousamos descobrir
Tu lá estavas ó Pedra
Soberba a presidir
Ao mundo inerte
À estrutura fria
Da grande Natureza
Mesmo seixo ou cascalho
Ou areia emigrante
És sempre bela e nobre
Dessa beleza sóbria e repousante
De raça e graça, simples e envolvente
Que mais e mais descobre
Quem te aprecia demoradamente.
Mármore branco ou rosa
Ou negro matizado
Xisto preto ou castanho
Granito pintalgado ou alva pederneira
Tua beleza atrai
Amadores e artistas
Divinos criadores:
Pedreiros ou famosos escultores
Arquitectos, canteiros
Ou simples calceteiros.
Serena, permaneces e generosa ofereces
Teu corpo hercúleo a essas mãos calosas
Que te transformam
Em tantas coisas úteis
Ou peças preciosas
(Fechando os olhos, de repente vi
O que seria este mundo sem ti)
Cortada simplesmente
À força de suor
Ou trabalhada com arte e amor
Tu és, ó Pedra, Muralha da China
E renda na Batalha e Notre Dame,
Estátua em Alcobaça
Ponte romana, calçada da rua
Por onde a gente passa.
És coluna em Atenas
Baixo relevo em altivo frontão
Cruzeiro de Adro
Terrível pelourinho
Ou português padrão,
E és a mó do moinho.
No meio do deserto
Pirâmide no Egipto senhorial
Ou altivo castelo medieval
Corpo elegante de uma fresca fonte
Escadaria em Bom Jesus do Monte
Torre sineira e sacra pia de baptizar
Pedra de altar ou tanque de lagar
És pedra de amolar e muro de quintal
És mesa de merendas
No meio do arraial
Com os olhos loucos da imaginação
Vejo-te grande...imensa
Medonha de tamanho
Nas lombas de uma serra (Seja na Estrela
Ou em outra qualquer)
Como um pastor tranquilo,
Tendo a teus pés um plácido rebanho
E outras enormes pedras
Que enchem a terra
Imagino também a tua majestade
Cortada a pique, altiva, vertical
Nas arribas do mar
Pelas águas batida
Nem por sombras vencida
Nessa luta brutal
Rochedo em Sagres ou em Gibraltar
Lage lisa horizontal
Ou fraga bem batida pelo luar
Seja qual for
O teu formato ou cor
Ou a composição
Do teu corpo possante
Estás sempre presente
Em casa rica ou pobre
Na soleira da porta, na lareira
Peitoril de janela ou chaminé
Nu cunhal, na sacada
No lindo rodapé.
És pedra de armas de família nobre
Quando Cristo voltou à celeste morada
Foi sobre ti a Igreja edificada.
E no dia em que de todo me calar
E o bom Deus me chamar
Pedra! Bem lisa e simples
Minha tão grande amiga
Irmã mais velha,
Tu me vais abrigar
Para que o grande sono
Ninguém vá perturbar.
In PAZ E BEM, Fundão, 1998.
Lançamento do livro Outros Poemas: |
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