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EM SAGRES

No céu de chumbo
Voam estonteadas
Gaivotas desgarradas
Dando no ar agudas gargalhadas

Cor verde-cinza
Reveste o chão um mato emaranhado
Pelo vento açoitado
Aqui e além rapado
Como num cemitério abandonado.
Nem árvores nem sombras
Nem uma fonte para refrescar
Um sol sem brilho vai banhando tudo
De uma leitosa luz que parece luar.

Rudes escarpas, rochas pardacentas
Com pedras soltas, gastas e lascadas
Pelo tempo impiedoso
De raquíticas ervas salpicadas
De aspecto sequioso.

Não longe, uiva o farol para avisar
Quem anda na labuta sobre o Mar.

Ao fundo as ondas batem nos rochedos
Babujando-os de espuma
E, num sussuro contam os segredos
Das velhas lendas envoltas em bruma

Naquele extremo sul de Portugal
O tempo até parece ter parado.
Não há presente. Só vive o passado.
Dele ficou um muro atarracado
Um velho "forte" pintado de cal
(Pobre país
Que deixa apodrecer os monumentos
E é feliz
Com as quinquilharias
Das lojas dos trezentos!)

Neste cenário pobre, angustiante,
Imagino um enorme colossal
Écran gigante
Onde desliza um filme virtual.
Meus loucos pensamentos
Levam-me ao tempo dos descobrimentos
É verdade ou ficção
O que, da história aprendida na escola
Vejo passar como uma procissão?

Abre o cortejo a figura do Infante
Rosto queimado e olhar penetrante
Absorto nos seus sonhos de expansão
Vem logo atrás confusa multidão
Artistas, mercadores, lado a lado,
Gentalha com "varões assinalados",
Aventureiros e loucos visionários
Marinheiros, corsários
E, pela Cruz de Cristo, heróicos missionários.
Uns, cheios de ideal, outros pela ambição
Muitos, só pelo gosto da aventura
Alguns tomados de santa loucura.
Todo este povo vai seguindo em frente
Sem vacilar, obstinadamente.
O seu destino é o mar
Que, qual, abismo, o atrai sem cessar.

De Valença ao Algarve tudo se despovoa
O país é...Lisboa
(Fará sentido a Ode do Pessoa?

É sonho ou pesadelo?
Terá razão o velho do Restelo?)
Naquela praia ou reina a euforia
Ou enorme agonia.
Não há ouvidos para a sensatez
Vítima da avidez
Não agoniza D. Fernando em Fez?
E o filme a preto e branco, já gasto e repetido
Continua a rodar
Contando a história de um povo sofrido
Que ganhou e perdeu na grande lotaria
Do Além-Mar
Que quase teve o Mundo e, sem se revoltar
Vive pobre, na Europa a mendigar.
E reza e baila em cada romaria
Com a mesma alegria
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E, quanto a mim,
Deixei-me felizmente adormecer
Sem sequer ver o
FIM

 

In PAZ e BEM, Fundão 1998.